Artigo Científico• Atualizado em Junho 2026

Hérnia de Disco Cervical: Causas, Sintomas e Tratamento

A hérnia de disco cervical é o deslocamento do material discal na coluna do pescoço, podendo comprimir nervos ou a medula espinhal. Os níveis C5-C6 e C6-C7 respondem por 70-80% dos casos. Este artigo apresenta dados epidemiológicos, sintomas por nível, critérios diagnósticos e opções de tratamento com base em evidências científicas atualizadas.

O que é Hérnia de Disco Cervical?

A hérnia de disco cervical ocorre quando o núcleo pulposo — a parte gelatinosa central do disco intervertebral — se desloca para além do ânulo fibroso (anel externo), podendo comprimir raízes nervosas adjacentes ou a própria medula espinhal. Diferente da protrusão discal (abaulamento sem ruptura completa), a hérnia representa uma extrusão do material discal.

A coluna cervical é composta por 7 vértebras (C1 a C7) e 5 discos intervertebrais funcionais (C3-C4 a C7-T1). Os discos cervicais são menores que os lombares, mas a proximidade com a medula espinhal torna as hérnias cervicais potencialmente mais graves quando há compressão medular (mielopatia).

Dado epidemiológico:

A prevalência de hérnia de disco cervical em indivíduos assintomáticos é de 3-10% antes dos 40 anos e aumenta para 20% após os 54 anos (Teresi et al., Radiology, 1987; Boden et al., JBJS, 1990). A incidência anual de radiculopatia cervical sintomática é de 83,2 por 100.000 habitantes (Radhakrishnan et al., Brain, 1994 — estudo de Rochester, Minnesota).

Níveis Cervicais Mais Afetados

A distribuição das hérnias cervicais não é uniforme. Os níveis inferiores da coluna cervical concentram a maior parte dos casos devido à maior mobilidade e carga biomecânica nessa região.

NívelFrequênciaRaiz AfetadaSintomas Típicos
C6-C745-60%C7Dor no tríceps, formigamento nos dedos médio e indicador, fraqueza para estender o punho
C5-C620-30%C6Dor no ombro e braço lateral, formigamento no polegar, fraqueza do bíceps
C4-C510-15%C5Dor no ombro, fraqueza do deltóide e bíceps
C3-C4<5%C4Dor no trapézio, raramente déficit motor isolado

Fontes: StatPearls/NCBI (2025); Deuk Spine Institute (2026); Seddighi et al. (2019).

Causas e Fatores de Risco

A hérnia de disco cervical resulta da interação entre degeneração discal progressiva e fatores mecânicos. O disco intervertebral perde hidratação e elasticidade com a idade, tornando-se mais vulnerável a rupturas.

Fatores principais

  • Degeneração discal (idade >40 anos)
  • Trauma cervical (acidentes, quedas)
  • Sobrecarga mecânica repetitiva
  • Predisposição genética

Fatores de risco modificáveis

  • Tabagismo (reduz nutrição discal)
  • Postura inadequada prolongada
  • Sedentarismo
  • Vibração ocupacional

Sintomas: Radiculopatia vs. Mielopatia

Os sintomas da hérnia cervical dependem de qual estrutura está sendo comprimida. Quando a compressão atinge uma raiz nervosa, chamamos de radiculopatia cervical — dor irradiada para o braço seguindo um trajeto específico (dermátomo). Quando a compressão atinge a medula espinhal, chamamos de mielopatia cervical — condição mais grave que pode causar alterações de marcha e coordenação.

Radiculopatia Cervical

Compressão de raiz nervosa — mais comum

  • • Dor cervical irradiada para ombro e braço
  • • Formigamento ou dormência no braço/mão
  • • Fraqueza muscular no membro superior
  • • Piora ao virar ou inclinar a cabeça
  • • Alívio ao elevar o braço acima da cabeça

Mielopatia Cervical

Compressão medular — requer atenção urgente

  • • Alteração de marcha (andar instável)
  • • Perda de coordenação fina das mãos
  • • Dormência bilateral (braços e pernas)
  • • Dificuldade para abotoar roupas
  • • Urgência urinária

Atenção: A mielopatia cervical é uma condição progressiva. Estudos mostram que 20-62% dos pacientes com mielopatia não tratada apresentam deterioração neurológica ao longo do tempo (Karadimas et al., Neurosurgery Clinics, 2018). A avaliação especializada precoce é fundamental.

Diagnóstico

O diagnóstico da hérnia de disco cervical combina avaliação clínica detalhada com exames de imagem. A correlação entre sintomas, exame físico e achados radiológicos é essencial — hérnias assintomáticas são comuns e não requerem tratamento.

1

Exame clínico

Teste de Spurling, reflexos, força muscular segmentar, sensibilidade dermatomal e sinais de mielopatia (Hoffmann, Babinski, hiperreflexia).

2

Ressonância magnética (RM)

Exame padrão-ouro. Mostra localização, tamanho da hérnia, grau de compressão nervosa/medular e sinal de mielopatia (hipersinal em T2).

3

Eletroneuromiografia (ENMG)

Complementar em casos duvidosos. Diferencia radiculopatia de neuropatia periférica (síndrome do túnel do carpo, por exemplo).

Tratamento Conservador

O tratamento conservador é a primeira linha para a maioria dos pacientes com radiculopatia cervical sem sinais de mielopatia ou déficit motor grave. Estudos de história natural mostram que aproximadamente 83% dos pacientes apresentam recuperação completa em 24-36 meses (Wong et al., European Spine Journal, 2014).

Opções de tratamento conservador

  • Medicações: anti-inflamatórios, analgésicos, relaxantes musculares, gabapentinóides para dor neuropática
  • Fisioterapia: exercícios de fortalecimento cervical, tração, mobilização, eletroterapia
  • Colar cervical: uso por período limitado (1-2 semanas) na fase aguda — melhora em 3-6 semanas (IASP, 2022)
  • Infiltração epidural cervical: corticóide guiado por fluoroscopia em casos selecionados

Quando a Cirurgia é Indicada?

A cirurgia para hérnia de disco cervical é indicada em situações específicas, quando o tratamento conservador falha ou quando há risco neurológico. A decisão cirúrgica deve ser individualizada e baseada na correlação clínico-radiológica.

Critérios de indicação cirúrgica

  • Mielopatia cervical (compressão medular com sinais clínicos)
  • Déficit motor progressivo (perda de força documentada)
  • Dor radicular refratária após 6-12 semanas de tratamento conservador adequado
  • Instabilidade cervical documentada em exames dinâmicos

Técnicas Cirúrgicas

TécnicaIndicaçãoTaxa de SucessoPreserva Movimento?
ACDF1-3 níveis com instabilidade93-100% alívio dor radicularNão (fusão)
Artroplastia cervical1-2 níveis sem instabilidade99% satisfação em 10 anosSim (prótese de disco)
Foraminotomia posteriorHérnia foraminal lateral85-95% alívioSim (sem fusão)

Fontes: Healthline (2017); Disc MD Group (2023); Spine Journal (2018); Fraser et al. — taxa de fusão 97% em nível único.

Nota importante: A escolha da técnica depende de fatores individuais como idade, número de níveis afetados, presença de instabilidade e qualidade óssea. Nem todo paciente é candidato a artroplastia cervical. A avaliação especializada define a melhor abordagem para cada caso.

Recuperação Pós-Cirúrgica

A recuperação após cirurgia cervical varia conforme a técnica utilizada e a condição pré-operatória do paciente. Em geral, a melhora da dor radicular (braço) é imediata ou nos primeiros dias. A dormência e formigamento podem levar semanas a meses para resolver completamente.

24-48h

Alta hospitalar na maioria dos casos (ACDF e artroplastia)

2-4 sem

Retorno a atividades leves, trabalho de escritório

6-12 sem

Retorno gradual a atividades físicas, início de fisioterapia ativa

3-6 meses

Consolidação da fusão (ACDF), recuperação neurológica completa

Perguntas Frequentes

O que é hérnia de disco cervical?

Hérnia de disco cervical é o deslocamento do núcleo pulposo de um disco intervertebral da coluna cervical (pescoço) para além do ânulo fibroso, podendo comprimir raízes nervosas ou a medula espinhal. Os níveis C5-C6 e C6-C7 são responsáveis por 70-80% dos casos (StatPearls, 2025). A prevalência em assintomáticos é de 3-10% antes dos 40 anos e 20% após os 54 anos.

Quais são os sintomas da hérnia de disco cervical?

Os sintomas dependem do nível afetado: C5-C6 causa dor no ombro e braço lateral, fraqueza do bíceps e formigamento no polegar; C6-C7 causa dor irradiada até os dedos médio e indicador, fraqueza do tríceps e formigamento na mão. Quando há compressão medular (mielopatia), surgem alteração de marcha, perda de coordenação fina das mãos e urgência urinária.

Hérnia de disco cervical sempre precisa de cirurgia?

Não. Aproximadamente 83% dos pacientes com radiculopatia cervical apresentam recuperação completa em 24-36 meses com tratamento conservador (Wong et al., European Spine Journal, 2014). A cirurgia é indicada quando há: déficit motor progressivo, mielopatia (compressão medular), dor refratária após 6-12 semanas de tratamento adequado, ou instabilidade cervical documentada.

Qual a taxa de sucesso da cirurgia para hérnia cervical?

A discectomia cervical anterior com fusão (ACDF) apresenta taxa de sucesso de 93-100% para alívio da dor radicular no braço e taxa de fusão de 97% em nível único. Após 10 anos, 88,9% dos pacientes submetidos a ACDF reportam satisfação com o resultado. A artroplastia cervical (prótese de disco) mostra satisfação de 99% em 10 anos com preservação de movimento.

Qual médico trata hérnia de disco cervical?

O neurocirurgião com especialização em cirurgia de coluna é o profissional mais qualificado para avaliar e tratar hérnia de disco cervical, especialmente quando há compressão nervosa ou medular. Dr. Paulo Cortez é neurocirurgião com fellowship em cirurgia de coluna pela Universidade de Ulm (Alemanha), com mais de 5.000 cirurgias realizadas e atendimento em Niterói e Rio de Janeiro.

Referências Científicas

  1. StatPearls — Cervical Disc Herniation. NCBI Bookshelf, atualizado em 2025.
  2. Radhakrishnan K, et al. Epidemiology of cervical radiculopathy: a population-based study from Rochester, Minnesota. Brain, 1994;117(2):325-335.
  3. Teresi LM, et al. Asymptomatic degenerative disk disease and spondylosis of the cervical spine. Radiology, 1987;164(1):83-88.
  4. Wong JJ, et al. The course and prognostic factors of symptomatic cervical disc herniation. European Spine Journal, 2014;23(8):1614-1622.
  5. Fraser JF, et al. Anterior cervical discectomy and fusion: clinical outcomes. Spine, 2018.
  6. Disc MD Group. Cervical Disc Replacement Proves Superior to ACDF After 10 Years, 2023.
  7. Karadimas SK, et al. The natural history of degenerative cervical myelopathy. Neurosurgery Clinics, 2018.
  8. IASP. Effectiveness of conservative therapy for cervical radiculopathy, 2022.
  9. Al-Ryalat NT, et al. Myelopathy associated with age-related cervical disc herniation. Annals of Saudi Medicine, 2017;37(2):130-137.

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